Elisabete
conte-nos como é que lhe surgiu a ideia de começar a andar
de moto?
Um dia, num quiosque da cidade de Lisboa
eu e o Jorge começámos a desfolhar uma revista de motos e
perguntámos um ao outro: "Porque não tiramos a carta
de moto?" Porque não?! Tirámos a carta e comprámos
uma Cagiva Elefantre 125. Assim, em nossa casa passou a
haver um carro e uma moto. O Jorge, porque tinha de ir todo
engravatado para o emprego levava o carro e eu, claro… ia
de moto! Portanto a moto começou por ser apenas um meio de
transporte na cidade.
Por graça inscrevi-me no Clube Todo-o-Terreno e passámos a
receber em casa informação sobre os passeios. Um dia
decidimos participar na "Ronda dos Castelos". E
foi assim que fiz o meu primeiro passeio de Todo-o-Terreno!
E
como é que correu?
Mal! Não sabia andar de moto na terra e fiz apenas oitenta
quilómetros dos duzentos que estavam previstos. Caí algumas
vezes, o radiador abriu e perdeu toda a água logo, tive de
abandonar o passeio. O Jorge, que por essa altura já tinha
uma Honda Dominator, acabou por fazer todo o passeio sozinho
embora com alguma dificuldade. Por isso concluímos que o
problema residia no facto das motos não serem próprias para
o Todo-o-Terreno. Assim estivemos um ano em grandes poupanças
e compramos duas Kawasaki KDX iguaizinhas.
Daí
para o campeonato de Todo-o-Terreno como foi?
Aí começaram as passeatas de fim-de-semana. Juntávamos um
grupo de amigos e íamos pelo campo fora. Um dia começaram a
desafiar-me para fazer uma competição. Eu não queria ir.
Achava que não era capaz, que não tinha físico… que não
tinha técnica! Mas eles insistiram tanto que dei comigo a
pensar: " Será que eles têm razão? Será que eu sou
capaz?"… e lá fui eu! A prova realizava-se na Serra de
Grândola e ao longo da mesma tínhamos de atravessar vários
rios. Caí num deles e demorei a pôr a moto de pé. O motor
ficou cheio de água e já não trabalhou mais. Contudo, eu
que achava que não era capaz de fazer nem setenta quilómetros,
tinha feito cerca de duzentos e setenta e quase terminava a
prova! Estava felicíssima, havia em mim um verdadeiro
sentimento de vitória. A sensação era de paixão. Fiquei
verdadeiramente apaixonada pelas corridas e pelo
Todo-o-Terreno. Passava os dias a pensar no assunto e a fazer
planos para me preparar para as próximas provas.
Nunca mais parei!
E
depois veio a internacionalização…
Fiz a minha primeira corrida em 1992. Depois, durante vários
anos, fiz o Campeonato Nacional de Todo-o-Terreno e fui
ganhando a Taça das Senhoras (desde 1993 até 1998). Até que
um dia decidi fazer provas em Espanha. Recordo que nem
conseguia dormir só de pensar nos seiscentos e cinquenta quilómetros
da Baja de Aragon a uma temperatura de 40ºC. Tinha receio de
não aguentar. Recordo que os últimos duzentos quilómetros
foram feitos sob um sofrimento terrível. Tinha dores por todo
o corpo e o ar que me entrava nos pulmões não era
suficiente! O meu coração batia desordenadamente… Quando
cheguei à assistência lamentei-me: "Jorge, Não aguento
mais!" E ele respondeu-me: "Claro que aguentas! Estás
a andar muito bem!" Eu acreditei que era verdade e fui até
ao fim!
E
nunca pensou em desistir?
Claro que pensei! Em cada corrida, eu decidia que era a ultima
que fazia… que não voltaria mais. Lembro-me de ter dito ao
Jorge, depois de terminar a primeira Baja de Aragon (em 1994):
"Se mais alguma vez te pedir ajuda para participar numa
prova destas… por favor diz-me que não! Eu não tenho físico
para isto!" Dez minutos mais tarde, depois de ter comido
e de ter dado conta que um bom grupo de rapagões que
considerava muito mais fortes e melhores condutores que eu…
afinal tinham ficado para traz… dizia-lhe: "Olha aquilo
que eu disse à pouco… não era a sério! Se eu tiver
oportunidade de voltar… tu ajuda-me!"
Isso
quer dizer que o Jorge (o seu marido) foi um elemento
importante para si!
Claro que foi! Se não fosse ele tinha feito as duas primeiras
corridas e tinha parado. Ele foi sempre o meu grande
impulsionador!
Aliás, as duas primeira corridas fizemos em conjunto com as
nossas motos gémeas (Suzuki DR 350). Depois verificámos que
não tínhamos dinheiro para tanto e um dos dois tinha de
parar. O Jorge optou por ser ele a parar por considerar que
eventualmente seria mais fácil para mim conseguir patrocínios.
Assim continuámos a partilhar o mesmo hobby mas ele passou
para a retaguarda. Ou seja, faz todo aquele trabalho que ninguém
sabe que existe e que, portanto, ninguém valoriza, mas que é
fundamental. E tem sido graças a esse trabalho que me tem
sido possível terminar as corridas. Ao longo destes anos foi
acumulando todos os cargos: Team manager, mecânico,
assistente, responsável pela logística, conselheiro,
massagista, relações publicas…Enfim… tudo o que eu não
faço… ele faz!
Então
e a ideia de fazer o Dakar como é que surgiu?
Lembro-me que um dia dei comigo a pensar que estava na altura
de parar de andar de moto. Enfim… queria ter filhos e o relógio
biológico não pára! Nessa altura senti pena de não ter
feito provas em Africa. Afinal de contas sou professora de
Geografia. Ensino aos meus alunos como se formam as dunas e
nunca as tinha visto… Imaginei-me a fazer corridas no
deserto e isso fez sentido na minha cabeça. Pouco tempo
depois dei comigo a ver as transmissões do Dakar na televisão
e a pensar: "Eu sou capaz de andar com uma moto grande e
pesada como estas…eu sou capaz de conduzir durante tantos
quilómetros…" e nesse momento senti que crescia… A
ideia de fazer o Dakar criou raízes de tal forma que dei
comigo a organizar a minha ida ao Dakar de uma forma
absolutamente obcecada.
Tinha a certeza absoluta de que ia ser capaz e nada me fazia
parar.
Planeei nesse ano fazer o rali da Tunísia e o Rali do Atlas
para ganhar experiência. Para o rali da Tunísia tive de
pedir dinheiro emprestado a uma amiga e para o rali do Atlas não
consegui a verba necessária e não fui. Para o Dakar tentei
tudo o que estava ao meu alcance mas quando chegou a hora de
pagar as ultimas contas … não tinha dinheiro. A solução
foi pedir um empréstimo ao banco. Foram três mil contos que
demorei quatro anos a pagar.
E
valeu a pena?
Claro que valeu. Mas foi um Dakar muito problemático. Todos
os aspectos relacionados com a preparação da moto que não
ficaram bem feitos acabaram por dar problemas. Todos os dias
era anunciada na televisão a minha desistência. Até que um
dia tive um problema eléctrico que não pude solucionar e aí
constatei que ia desistir. Foi um momento muito duro. Um dos
mais duros que já vivi. Estava convencida de que nunca mais
poderia voltar a fazer corridas de moto e que teria de dedicar
todo o tempo a trabalhar para pagar a minha divida… que o
meu sonho de "Dakar" ficava assim desfeito e que
nunca mais ninguém ia confiar em mim.
Mas
acabou por voltar!
Sim. A vida tem destas coisas. Nem sempre tudo está perdido
quando parece!
A verdade é que voltei no ano seguinte com o patrocínio da
Trifene 200 e muito bem preparada. Tudo correu bem até que
numa travessia de dunas de areia muito mole parti o motor da
KTM. Mais uma vez vinha para casa mais cedo devido a problemas
mecânicos e, por isso, continuava convencida de que era a
"Super mulher" e que poderia terminar o Dakar.
Isto
foi no ano de 99, certo? Mas depois voltou a tentar!
Neste ano aprendi que não há "Super homens" nesta
corrida. Que os pilotos se agrupam 2 a 2 para se ajudarem. Por
isso organizei-me, reforcei a equipa e fiz o Dakar com outro
piloto, o Mário Brás. Essa corrida foi espectacular e tudo
correu bem. Só perdi tempo uma vez para ajudar o Mário que
ficou sem gasolina e fiz especiais muito boas. Foi um
brilharete. Não só terminei o Dakar como ganhei a Taça das
Senhoras. Todos aplaudiram. Fiquei muito contente. Foi a
realização de um sonho.
Mas
não ficou satisfeita e decidiu voltar no ano de 2001!
Sabe, é que o Dakar no ano 2000 teve menos quatro dias devido
a ameaças terroristas. Apesar do brilharete, quando as
pessoas me davam palmadinhas nas costas diziam-me "…mas
tiveste sorte porque o Dakar este ano teve menos quatro
dias!..." Eu engolia em seco e ficava cheia de raiva.
Sentia que não acreditavam que, se o Dakar tivesse tido os
dias todos, eu o teria terminado. Eu própria acabava por
ficar com essa dúvida. Por isso quando o Jorge me propôs
pormos fim à nossa carreira desportiva eu bati o pé e disse:
"Eu quero lá voltar! Quero fazer um Dakar inteiro!"
Depois de uma discussão animada iniciámos os preparativos
para mais uma tentativa. Fiz equipa com o Pedro Machado e
tinha um carro de assistência. Tudo muito bem organizado.
Levava os dois melhores mecânicos do país: o Rui Pôrelo ia
no carro e o João Santos ia de avião ás três etapas possíveis.
Eu estava muito bem preparada e mais forte do que nunca…
Mas
teve problemas?
Sim! Falhou o factor sorte!
O meu carro de assistência pisou uma mina na fronteira de
Marrocos para a Mauritânia. A frente do carro explodiu
completamente e todos os seus ocupantes foram evacuados para o
hospital das Canárias. Fiquei sozinha sem mecânico, sem
assistência, sem nada… só com o equipamento que tinha
vestido… Tive a certeza que mais uma vez ia ter de
desistir!... Então nesse momento tomei uma decisão muito
firme: "Desistirei no momento em que cair para o chão e
não me conseguir levantar. O Zé Ribeiro merece todo o meu
empenho e, por ele irei até ao meu limite!"
Nesse Dakar descobri que o limite está, de facto, em nós!
Caí um milhão de vezes e um milhão de vezes me levantei e
continuei! Fui até ao final!
Foi um Dakar de sofrimento!
Foi muito duro em termos de percurso. Particularmente lento,
com muitas dunas, muitas pedras e muita erva… Quando terminávamos
uma etapa tínhamos de fazer todo o trabalho pois não tínhamos
ninguém para nos ajudar: organizar o acampamento, fazer a mecânica
das motos, preparar a navegação para o dia seguinte… No
final, sobravam muito poucas horas para dormir. Houve noites
em que dormimos apenas quatro horas! Não é suficiente para
quem vai de moto! … no outro dia, porque ia cansada caia
mais, demorava mais tempo, terminava mais tarde… descansava
menos…
Terminei cheia de lesões, com vários ossos partidos… e
quando cheguei à meta depois de, finalmente ter terminado um
Dakar inteiro, o mais duro dos últimos anos, tendo-o feito
sem as mínimas condições… em vez de alegria eu sentia uma
profunda tristeza!
Tive muito mérito nesta minha participação, muito mais do
que no ano anterior!... mas não trouxe nenhum titulo… e por
isso não fui valorizada!
Foi
por isso que decidiu deixar de fazer corridas de moto?
…confesso que foi um certo sentimento de frustração que me
fez parar. Ou seja, para voltar ao Dakar teria de ser para
fazer um bom resultado. Já não me bastava terminar… e não
conseguia criar as condições necessárias para melhorar.
Precisava de treinar com a moto várias vezes ao longo da
semana, logo não podia continuar a trabalhar. Precisava de
ter uma pessoa para treinar comigo pois sozinho não se fazem
progressos. Não conseguia arranjar dinheiro para participar
nas provas que considerava adequadas, … e não consegui
dinheiro para voltar ao Dakar…
Fiquei zangada e disse: "Não faço mais!" numa
altura em que considerava ter capacidade para continuar a
melhorar!
Então
decidiu fazer corridas de camiões!
Sim… porque, naturalmente, ainda não estava na minha altura
de parar de fazer corridas. Aprendi muito ao longo destes anos
e sinto que estou no momento de poder rentabilizar tudo o que
aprendi.
Fazer um Dakar de moto foi a coisa mais difícil que fiz na
vida. Depois dessa experiência sinto-me com coragem para
fazer o que quiser. Porque não corridas de camião?!
E
porque não de automóvel?
Não esqueça que o meu problema residia em criar condições
monetárias para poder treinar e fazer progressos. Precisava
de algo que fosse suficientemente brilhante para dar retorno
aos patrocinadores.
Mas
chegou a fazer corridas de automóvel?!
Durante dois anos fiz a Copa Jimny e também provas da Taça
do Mundo com um Toyota mas porque precisava de fazer a transição
da moto para o camião. É que durante muitos anos eu só
conduzia moto e precisava de ganhar a percepção das quatro
rodas.
Mas
tirar a carta de camião em Outubro e fazer o Dakar em Janeiro
não foi um pouco de loucura?
Concordo que foi uma loucura, mas… ponderada!
Eu precisava de ter a certeza se era capaz de conduzir um camião
na corrida mais dura do mundo mas a primeira vez é sempre uma
experiência complicada. É difícil que tudo corra bem. Assim
aproveitei uma oportunidade e fiz a minha primeira participação
com um baixo investimento. Fui com um camião muito antigo, ia
muita carregada pois levava muito material para dar assistência
a outras equipas.
Mas aprendi muito e hoje parto para o Dakar com a noção
exacta daquilo que me espera e pude preparar-me para o
enfrentar.
Elisabete,
depois de todos estes anos de corridas a pergunta obrigatória
é: "O que é que realmente a faz correr?"
O gozo da superação. O facto de sentir que hoje faço o que
ontem não era capaz.
Melhorei muito com a prática do desporto. Tornei-me uma
pessoa mais forte, mais segura, mais capaz…com uma visão
mais correcta do mundo!
O gozo de perceber que podemos ir até onde queremos, que o
limite está em nós… e que a chave do sucesso se resume na
palavra. "Querer!".
Elisabete
Jacinto
21/12/03
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